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17-03-2014
Cultura

Silence 4, uma ocasião para recordar o que se foi

Silence 4, uma ocasião para recordar o que se foi
Um dos maiores fenómenos da década de 1990 no campo da música feita em Portugal, os Silence 4 estão aí para uma curta série de concertos, e esta segunda-feira é editada uma caixa com dois álbuns e várias surpresas. Eles dizem que não se trata de um regresso, mas de uma ocasião para recordarem o que foram.

Ainda hoje, com a distância de quase 20 anos, é difícil entender na plenitude o fenómeno Silence 4, e os próprios sabem-no. “Se analisarmos com atenção, e se formos ao início, havia razões para sermos cépticos em relação ao sucesso, até porque não houve uma editora que não nos tivesse rejeitado”, diz-nos David Fonseca.

Inclusive aquela à qual o grupo pertence, a Universal, que esta segunda-feira vai colocar no mercado uma caixa com os seus dois álbuns de originais (Silence Becomes It, de 1998, e Only Pain Is Real, de 2000) acompanhados por várias surpresas, como um CD de raridades (1996-2000) onde poderão ser encontradas demos e remisturas de temas como Borrow ou Goodbye tomorrow, e temas nunca antes revelados, como Letter to Memphis.

Há ainda o DVD das actuações no ex-Pavilhão Multiusos de Lisboa, em 1998, e do Coliseu dos Recreios, em 2000, assim como uma série de videoclipes.

Esta edição retrospectiva acontece, claro, no contexto do regresso aos palcos do grupo de David Fonseca. Depois de um miniconcerto especial no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa e do concerto, no passado sábado, dia 15, em Ponta Delgada, haverá ainda lugar para o Funchal (dia 22), Guimarães (dia 29) e Lisboa (5 de Abril).

Como se sabe, o grupo decidiu reunir-se para uma série de concertos que resultam de uma colaboração com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, revertendo parte das receitas para essa instituição. O retorno aos palcos deu-se no IPO, a instituição onde Sofia Lisboa foi tratada durante três anos, com sucesso, a uma leucemia. A cantora de Leiria, e os colegas, quiseram retribuir o esforço feito diariamente pelo corpo hospitalar com um pequeno espectáculo no final de Fevereiro.
“Foi espectacular, muito à flor da pele, com uma carga emocional muito grande”, recorda Sofia, enquanto David Fonseca vai mesmo mais longe: “À segunda canção, percebemos de imediato que iria ser mais do que um concerto, uma experiência, para nós e para eles, uma comunhão, qualquer coisa de muito bonito.” (...)

Os Silence 4 formaram-se em 1995 e, para além de David e Sofia, há ainda o baixista Rui Costa e o baterista Tozé Pedrosa. Duraram cerca de seis anos, durante os quais gravaram dois álbuns e se transformaram num dos maiores acontecimentos da música feita em Portugal. Mas, no início, esse desfecho não era previsível.

O facto de cantarem em inglês era sempre um obstáculo na aproximação às editoras. “Propunham-nos para mudarmos para português, e assim lançariam os nossos discos, mas recusámos sempre isso”, lembra Sofia.

O sucesso do grupo apanhou-os também desprevenidos. E não foi apenas pelo facto de a aproximação às editoras ter sido difícil. “Quando assinámos, era tácito, por parte da editora, que éramos uma contratação de risco, mas o que mais nos espantou é que os Silence 4 eram um fenómeno ‘indie’. Passávamos na rádio XFM. Não havia dados que mostrassem que nos iríamos transformar num grupo de massas.”

O primeiro concerto do grupo, a seguir ao lançamento do álbum, é aliás patrocinado pela XFM, nessa altura a rádio mais conotada com os caminhos ‘alternativos’ da música popular, lembram eles. “E o público que estava lá seguia esse figurino, para além de sermos comparados com bandas como os Grant Lee Buffalo, ou com os primeiros tempos dos americanos REM”, explica David, ironizando de seguida: “Curiosamente, dois meses depois, já diziam que éramos imitadores dos Crash Test Dummies; ou seja, durante três anos, fomos uma banda de índole alternativa folk e, de repente, éramos comparados às bandas de massas do momento.”

Internacionalmente, é relativamente fácil encontrar casos análogos. Ou seja, grupos que, em determinado momento, eram conotados com públicos minoritários, e que passam, de repente, a ser venerados, sendo de imediato encarados como grupos de grande público. Mas, em Portugal, casos tão fulgurantes como o dos Silence 4, que tenham feito essa transição rápida, são muito raros.

As canções acústicas de carácter intemporal do grupo ajudam a explicar o sucesso. Mas o contexto social poderá também ajudar a explicar esse êxito, diz David. “Estávamos em 1998, parecia existir algum bem-estar, não havia concertos em que as pessoas não pagassem para nos ver e havia uma sensação de novidade.”

É tudo verdade, mas, ao mesmo tempo, parece faltar qualquer coisa. “Se alguma destas coisas justifica o sucesso de vendermos 240 mil discos? Porquê nós? Enfim, poderia ter sido outra banda. Não sei. Não é fácil de explicar, mas aconteceu. Quando tocámos no Pavilhão Atlântico em 1998, já estávamos há seis meses naquela loucura, e eu não conseguia compreender por que é que aquilo estava cheio. Não tinha, e não tenho, uma razão óbvia.”

Contra as expectativas, o álbum de estreia alcançou a quíntupla platina, passando vários meses no primeiro lugar do top português. Na rua, nos hotéis onde pernoitavam em digressão, ou na vida quotidiana, eram constantemente solicitados pelo público.

“Mal saíamos porta fora, seja onde for, havia sempre alguém a dizer qualquer coisa, o que tornou as coisas difíceis para o segundo disco”, recorda Sofia. “Agora, tanto tempo depois, até parece que estamos a inventar, mas a pressão era terrível”, lembra David. “Não podia ir a lado nenhum, da discoteca ao supermercado. E isso fez-nos pensar que teríamos de nos afastar para gravar o segundo álbum, relaxando da pressão envolvente.”

Foi nos estúdios Ridge Farm, de Londres, que acabaram por gravar o segundo álbum. “Havia consciência da responsabilidade, depois de termos vendido tanto com o primeiro” – diz Sofia – , “e sentíamos que tínhamos tido pouco tempo para criar as novas músicas, por causa dos concertos constantes.” 

É verdade, reconhece David, lembrando o processo de feitura de Only Pain Is Real: “Só houve tempo para estarmos em casa dos meus pais a fazer canções e a ensaiar e, de repente, fomos para Londres.” A editora estava na expectativa de que o grupo conseguisse obter novo êxito. O grupo estava mais tranquilo. “Em Londres, voltámos a ser os putos em sossego que éramos, sem ninguém a empurrar-nos à volta.”

“A dada altura, fomos do 8 ao 80”, diz Sofia, referindo-se aos anos de anonimato seguido de súbito sucesso. “Não é fácil de gerir, mas sempre tivemos perfil anti-vedetas.” Já David acha que a questão nem se punha entre eles. “Não falávamos sobre isso. Não nos interrogávamos sobre a fama. Não constituía preocupação.”

Hoje, argumentam que tinham bem definido o que queriam, e isso terá sido determinante. “Estávamos focados, não existiam muitas distracções e sabíamos que o que perseguíamos não era o caminho mais rentável ou comercial”, argumenta Sofia, enquanto David lembra um dos momentos decisivos daquele tempo.

“Estávamos num hotel do Porto, três meses depois do fenómeno ter explodido, e o [músico e produtor] Mário Barreiros foi ter connosco. Não havia hotel onde ficássemos que não tivesse um grupo de pessoas à porta, tipo Beatles. Entrávamos e estavam à nossa espera. Saíamos e estavam à nossa espera. Era incrível. E o Mário – que respeitávamos imenso, porque já tinha passado pelo sucesso do Rui Veloso ou do Abrunhosa –, ao perceber aquela confusão, vira-se para nós: ‘Têm de decidir se querem focar a vossa atenção nisto ou então na música, porque não existe forma de se focarem nas duas coisas. De contrário, isto acaba rapidamente.”

O grupo viria realmente a acabar, mas não por essas razões, afirmam. “Estávamos em digressão desde Junho de 1998. Durante todo aquele tempo, nunca parámos. Nunca existiram férias para ninguém. Só em 1998, a partir de Junho, fizemos 90 concertos. Em 1999, foram para aí uns 50. Quando saímos de estúdio, em 2000, foi para preparar de imediato nova digressão. E em 2001 continuámos a tocar. A certa altura, olhámos uns para os outros e percebemos que tínhamos que ir de férias. Estávamos fartos.”

Parecia existir a sensação, no seio da banda, de que haviam tocado nas principais salas do país e que, em termos de percurso, tinham completado um ciclo, recorda Sofia. “Então, fomos de férias”, afirma David. “Seis meses depois, cada um de nós já estava a fazer coisas diferentes, e eu comecei a fazer músicas que não se adaptavam aos Silence 4. Mas nunca falámos nisso. Nunca ninguém disse: 'vamos acabar com a banda'”.

O fim foi natural, parecem querer dizer. Mas, durante estes anos todos, nunca imaginaram regressar? “Os Silence 4 foram um momento de suspensão na minha vida, que foi bem passado” – reflecte Sofia –, “mas quando o fim se foi instalando, pensei: 'Agora posso seguir com a minha vida e fazer outras coisas'. E os outros fizeram o mesmo. Não fazia sentido juntarmo-nos outra vez.”

Da mesma geração de 1990, os Ornatos Violeta regressaram o ano passado, mas, no seu caso, o culto foi-se alargando depois do fim. No caso dos Silence 4, não. Talvez porque David Fonseca prosseguiu uma carreira de sucesso, não deixando muito espaço para a nostalgia. Embora este curto regresso abra espaço para que isso aconteça. Internacionalmente, têm-se, aliás, acumulado, nos últimos anos, os regressos de grupos das décadas de 1980 e 1990.

“O mercado da nostalgia é atraente, porque são essas pessoas os potenciais consumidores”, reflecte David. “O [músico e cantor] Gomo disse, uma vez, quando foi ver os Pixies, que não sabia se aquilo lhe lembrava a sua juventude ou o quão velho era. Talvez seja um pouco das duas coisas”. Isso talvez seja verdade do lado dos consumidores, e de como gerem as suas expectativas.

Mas, e os músicos? Como é confrontarem-se com canções que compuseram há vinte anos, e que já não tocam há muito, sabendo que inevitavelmente se transformaram também como indivíduos?

“É evidente que há canções que estão mais longínquas daquilo que somos hoje enquanto pessoas do que outras”, afirma David. O segredo, diz, é olhar hoje para elas com distância, como sendo clássicos. “É quase como se a canção não fosse minha, não a tivesse escrito, mas sim algo que tivesse acoplado ao imaginário de alguém, embora percebamos a força que ela tem, mas não no mesmo sentido em que a cantava originalmente. Embora ainda existam canções que consigo sentir dessa forma. Mas, com a maior parte delas, tenho essa sensação de estar a revisitar clássicos.”

Neste regresso ao vivo, poderiam ter optado pela recriação das canções, propondo novos arranjos, mas não será isso que acontecerá. “Desde o primeiro momento que nos pareceu que tínhamos de ser o mais fiéis possível às canções”, diz Sofia. “Optámos por não actualizar ou reinventar nada. As canções estão como eram”, conta David. “Até porque a ideia não é os Silence 4 voltarem, mas sim recordarem aquilo que foram”, conclui Sofia.

Uma das curiosidades da edição que é hoje colocada nas lojas é a de conter algumas raridades, como a primeira maqueta do grupo. “Quando fomos gravar o primeiro disco, tínhamos 50 temas feitos e muitas dessas canções nunca foram gravadas, sendo apenas tocadas aqui e ali. Fomos recuperar essas canções e pusemo-las nesse disco”, explica David. “Depois, há ainda umas raridades estranhas, como a tarde em que resolvi colocar os Silence 4 num estúdio a tocar a versão dos Pixies de Letter to Memphis".

Na segunda metade dos anos 1990, gravar era caro, e muitas das canções propostas acabavam por não ser registadas. Hoje é mais fácil e barato registar as ideias que se vão tendo. O mundo mudou. Um pouco, pelo menos. Mas os Silence 4 querem mostrar que há coisas que não mudam assim tanto, apesar dos anos. Uma coisa é certa: para os rever, ou será agora ou nunca. Palavra deles.

Estão em condições de garantir que nunca mais retornarão? “Sim, depois destes concertos, os Silence 4 não vão voltar, isso é certo.”

Fonte: publico.pt

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