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16-03-2015
Cultura

«Malditos - Histórias de Homens e de Lobos» apresentada no EcoMuseu do Barroso

«Malditos - Histórias de Homens e de Lobos» apresentada no EcoMuseu do Barroso

Editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, foi apresentado publicamente, na sede do Ecomuseu de Barroso, Montalegre, o livro "Malditos - Histórias de Homens e de Lobos" de Ricardo J. Rodrigues. 

 

A conhecida jornalista da SIC, Cândida Pinto, apresentou uma obra que narra a relação de amor e ódio entre o homem e o lobo.
Segundo maior concelho de Trás-os-Montes, Montalegre oferece histórias de lobos infindáveis que motivaram a escrita de Ricardo Rodrigues. 
Apaixonado por Barroso, o autor teve na apresentação da obra um número considerável de jornalistas, numa ação promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e que contou com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Montalegre. Um "retrato", pela primeira vez exibido fora da capital, facto destacado pela organização e muito bem recolhido pela autarquia que olha para esta aposta como um reconhecimento ao valor natural do concelho.
No que concerne à temática, há quem defenda que os lobos são oportunistas, alimentam-se do que está mais à mão e é assim que entram na batalha com os homens. Foram as notícias sobre alcateias que dilaceram rebanhos nos montes e vales do chamado "Portugal profundo" que despertaram em Ricardo J. Rodrigues a vontade de saber mais sobre esta «guerra ancestral entre dois exércitos decadentes». O autor, jornalista da Notícias Magazine, passou os últimos 10 anos «nas aldeias acossadas pelas alcateias a ouvir o resmungar dos velhos» e o resultado está em "Malditos – histórias de homens e de lobos".
 
OBRA
 
O livro resume, em quatro reportagens, o conflito entre dois mundos em extinção, o dos pastores e o dos lobos, que se amam e se odeiam ao mesmo tempo. Fala de Urzeira, a loba errante e solitária que luta pela sobrevivência depois de um cativeiro forçado, mas acaba por morrer. Conta a história de Adrian, o menino de escola que perdeu o melhor amigo, um pónei, na boca do lobo. Retrata o combate que se trava numa aldeia perdida nos montes da Serra de São Macário, em São Pedro do Sul, onde o autor conversou com o "Mata-Lobos". E acaba com a história do lobo Trevo, salvo pela bravura e sabedoria de três crianças de 15, 13 e 10 anos, às quais ensinaram na escola que o lobo está em extinção. Ainda sobre o livro, este, embora não o diga, Trevo acabou por morrer na Galiza, depois de atravessar a A52 perto de Verín. Causa da morte: «traumatismo de origem desconhecida e hemorragias internas provavelmente causadas por atropelamento», refere Francisco Álvares, um dos oradores desta apresentação.
 
PRESIDENTE APELA À DEFESA DO LOBO
 
O exemplar, na ótica do presidente da autarquia, ostenta «uma temática extraordinariamente interessante e muito ligado à nossa identidade». Uma publicação, defende Orlando Alves, «que devia ser quase de leitura obrigatória para todos os barrosões». Para o presidente da Câmara de Montalegre «temos que desmistificar a má ideia que toda a gente tem do lobo». Um animal, sustenta o edil, que «tem o mesmo direito de povoar as nossas terras que qualquer ser humano». Orlando Alves vai ao ponto de referir: «deveríamos pensar nisto todos os dias...quando este equilíbrio se desfizer completamente, o homem vai aperceber-se de que toda a relação cultivada vai virar-se contra ele próprio». Sempre no mesmo tom, o edil interroga: «em relação ao título "Malditos", cada leitor que tente perceber quem é o maior maldito. Será o lobo que caça para sobreviver ou o homem que mata para viver?».
 
DADOS
 
Só no concelho de Montalegre existem cerca de 40 fojos, estruturas conhecidas apenas no noroeste da Península Ibérica. A última batida deste género terá acontecido perto de 1950 e hoje os fojos integram percursos pedestres que atraem turistas à região. A caça ao lobo foi proibida em 1988 para tentar travar a extinção da espécie mas as perseguições ilegais continuaram. Um relatório do Instituto Nacional de Conservação das Florestas (ICNF) dá conta de 64 lobos mortos entre 1999 e 2008 nos quatro núcleos populacionais existentes no país: Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro. Destes 64, 21 foram atropelados, 11 foram alvo de armadilhas com laço, dez foram mortos a tiro, três morreram por envenenamento, dois por esgana e um por infeção. No ano passado morreram pelo menos dois lobos em Montalegre, quatro no país. Um censo de 2002 contabilizou 300 indivíduos, um número que já não deve corresponder à realidade. As notícias recentes de ataques dos lobos ao gado, sobretudo na zona a Sul do Douro e nos concelhos da Guarda e de Almeida, puxaram o assunto para a ordem do dia. O secretário de Estado da Conservação da Natureza anunciou recentemente que tem 57 milhões de euros até 2020 para investir na proteção dos rebanhos, com cães de gado, bem como na elaboração de um plano de ação e de um novo censo.
 
TRILHO DO LOBO
 
O Fojo do Lobo do Avelar, pertence ao Trilho do Ourigo, consiste numa armadilha de caça para lobos. Coberto de vegetação e formado por duas paredes de pedra que convergem para um buraco empedrado com cerca de 2 metros de altura, recorda os tempos em que o lobo era temido na serra.
Coordenadas GPS - Latitude 41.804261 | Longitude 7.806372 | Altitude 1108 m
 
TEM A PALAVRA
 
David Teixeira
(Vice-presidente Câmara Municipal de Montalegre)
«Em primeiro lugar, o meu reconhecimento ao autor. Tive o prazer de passar algumas noites com o Ricardo Rodrigues e o Francisco Alvares a ouvir histórias de lobos que contribuíram para aquilo que hoje sei sobre esta espécie fascinante e que cativa. Foi sempre um elemento agregador da etnografia local, desde que trabalho no Ecomuseu. O lançamento deste livro marca, também, a viragem de um ciclo na forma como Montalegre está a ser promovido. A presença da fundação, que pela primeira vez lançou um livro fora de Lisboa, é um reconhecimento por este trabalho de inventariação e defesa do património cultural desta identidade barrosã. Espero que Montalegre saiba agarrar um dos seus ícones, que é o lobo ibérico. Temos mais um trunfo para promover Montalegre. O lobo tem passado, presente e tem que ter futuro. É um motivo acrescido para que os turistas venham a Montalegre, conhecer um conjunto de estruturas ligadas ao lobo como são as centenas de fojos que ainda existem neste concelho».
 
Fátima Fernandes
(Vereadora da Educação Câmara Municipal de Montalegre)
«É muito interessante, Há já alguns anos o autor esteve em Montalegre, na Feira do Livro, onde apresentou um livro com a mesma temática. Ele retrata a paixão que tem pela nossa terra neste animal que é simbólico e místico. Ultimamente a comunicação social notícia episódios de ataques de lobos. Os agricultores que me perdoem, mas seria importante refletir porque é que isso acontece. Se os homens invadem o habitat do lobo, matam a caça que é o seu alimento, eles têm que sobreviver de alguma forma. Por outro lado, às vezes é uma forma inteligente de receberem mais alguns financiamentos. Gostava que as crianças do futuro pudessem ver um lobo ao vivo e não só nas páginas das enciclopédias. É bom que o animal homem aprenda a conviver com os restantes animais». 
 
Francisco Álvares
(Biólogo)
«Foi uma sessão muito interessante, com figuras de relevo, como a Cândida Pinto. É um bom canal de sensibilização em relação ao tema dos lobos. Durante muitos anos andei aqui em Montalegre onde desenvolvi um grande trabalho de investigação nesta região onde sempre demonstrei muito carinho, pelas pessoas, mas também pelo património natural e cultural. Acho que este livro reflete toda a interação e coexistência entre lobos e homens. Acaba por ser uma forma de fazer chegar este conflito ao público em geral. É importante que chegue a toda a gente. Esta obra é um exemplo de bom jornalismo».
 
Nuno Garoupa
(Presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos)
«Esta sessão de apresentação correspondeu amplamente às nossas expetativas, quer em termos do número de participantes, o espaço esteve cheio, quer na qualidade das intervenções. Nunca tinha estado em Montalegre. Foi uma ótima receção, generosa e parece-me que está aqui a ser feito um trabalho muito interessante. Certamente será para regressar enquanto turista. Do ponto de vista institucional da fundação, será para continuar a apresentação de livros e ensaios fora de Lisboa. Esta obra lança um tema que é muito importante para a economia e sociedade desta região que está esquecido e ignorado. Foi um projeto que nós acarinhamos porque a função desta instituição é estudar a sociedade portuguesa, não só a de Lisboa e Porto».
 
Gorete Afonso
(Responsável Biblioteca Municipal Montalegre)
«Um agradecimento especial à Fundação Francisco Manuel dos Santos pela oferta que nos fez chegar, uma coleção das suas publicações. O meu agradecimento também ao autor. Li o livro e guardei as personagens todas na memória. Sensibilizou-me particularmente a história do "Trevo". São ações de educação e pedagogia que desenvolvem os territórios e as suas gentes. Foi uma apresentação muito agradável».
 
Cândida Pinto
(Jornalista)
«É a primeira vez que venho a Montalegre. É uma vergonha porque já deveria ter vindo cá. Agradeço ao Ricardo Rodrigues que me desafiou para isto. Foi um enorme prazer conhecer Montalegre e apresentar este livro. Foi uma excelente ideia da Fundação Francisco Manuel dos Santos fazer este lançamento aqui. Vivemos num país muito pequeno mas às vezes parece muito longe, mas quando chegamos ficamos cheios. Fizemos um passeio pelos trilhos dos lobos, sítios muito bonitos. Fomos tratados principescamente, as pessoas trataram-nos muito bem, são muito hospitaleiras. Claramente apetece-me voltar aqui. Esta temática dos lobos é difícil para quem vive aqui e fácil para quem vive em Lisboa. É difícil falar dela e eu tenho consciência disso. Fui desafiada a fazer aqui uma produção, quero conhecer melhor Montalegre e regressar com mais tempo para isso. É uma zona pouco inóspita, pela sua própria geografia e daí também a atracão que proporciona».
 
Ricardo Rodrigues
(Autor do livro)
«Este livro foi uma aposta muito forte da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Trata-se de um tema que habitualmente está afastado das notícias, o desaparecimento do mundo rural, a extinção dos animais selvagens. É muito justa a oportunidade de apresentar aqui o livro porque é o sítio onde venho beber essa inspiração. Montalegre é um sítio que nos fica entranhado na pele. Deve haver alguma propriedade mágica na água que nos faz querer voltar. É uma das terras mais bem conservadas do país em termos naturais, culturais, de tradições. Não há nada que melhor permita conhecer isso que o lobo. Todo o património, oralidade e tradição cultural remetem para o lobo. Ao longo de anos comecei a tentar percebê-lo, neste que é o melhor sítio para isso, através do comportamento do animal mas também das pessoas que lidam com ele. Acabo por perceber que são duas faces da mesma moeda. Uns não podem viver sem os outros e explicam-se explicando-se».

Fonte: Gabinete de Imprensa da CM de Montalegre

 

  • «Malditos - Histórias de Homens e de Lobos» apresentada no EcoMuseu do Barroso
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