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20-05-2014
Cultura

Disco raro de 1971 renasce em vinil mas com as técnicas do século XXI

Disco raro de 1971 renasce em vinil mas com as técnicas do século XXI
Raríssimo, o primeiro LP a solo de José Cid volta ao mercado em vinil, num restauro fiel do disco de 1971, mas aproveitando as técnicas do século XXI. O lançamento é hoje, em Lisboa, no auditório da SPA.
Quem tiver, à época, manuseado o disco, ficará surpreendido: é igual! Ou quase… A capa, desdobrável, usa o mesmo tipo de cartão rugoso, a tonalidade das fotos é perfeita, interior e contracapa estão tal como na edição original de 1971.

No entanto, emendaram-se pequenos erros nos títulos das canções e o vinil utilizado é de 180 gramas, numa prensagem ao gosto dos audiófilos. E, no interior, junto ao disco (que, por fora, é selado numa capa de celofane reutilizável, ao jeito das miniaturas japonesas), há um libreto bilingue, esse sim, inteiramente novo, onde se explica tudo (a história, as canções, os processos musical e técnico) e onde se publicam, pela primeira vez, as letras dos doze temas, o que o original não fazia.

Miguel Augusto Silva, da Armoriz, empresa criada em Portugal para este tipo de edições, chegou a este disco através da ideia de “homenagear a música, os artistas e as pessoas ligadas à música portuguesa, através de edições cuidadas em LP, ao mais alto nível”. E ele diz LP, ou seja, vinil, porque acha que “a experiência de escuta de um LP é diferente, é mais física, somos também mais influenciados pelas emoções do objecto em si, da capa, dos textos, das fotos… O retorno é muito mais gratificante e aprende-se muito mais. O formato digital não me dá isso, principalmente hoje em dia com o MP3, onde o objecto desapareceu completamente.” O primeiro disco a solo de José Cid, além de raríssimo, permitia-lhe a experiência de voltar ao ponto “zero”, há 43 anos.

Editado em Maio de 1971 pela Valentim de Carvalho, com selo da Columbia, teve à data apenas 400 cópias, mas não só as masters originais estavam a salvo como o técnico de som Hugo Ribeiro, que o registou na época, estava disponível para voltar a fazer tudo de novo. E assim foi. Com Hugo Ribeiro, esteve, agora, outro grande nome dos estúdios portugueses, José Fortes. Corrigiu-se, como escreve Hugo Ribeiro no libreto do disco actual, o que podia ser uma “escuta enganadora” da época e, num “meticuloso processo de restauro”, mantiveram-se as características da gravação original: “Ao ouvir o resultado, tantos anos depois, tive a sensação de estar novamente no estúdio de gravação”, escreve Hugo Ribeiro. E se, na verdade, lá estivesse, teria pela frente uma máquina 3M M23 de oito pistas (uma novidade para a época, em Portugal), onde José Cid gravou, sozinho, todas as vozes e instrumentos que o disco regista: piano, guitarras, baixo, bateria, órgão, flauta, cravo. “Toquei os instrumentos todos, fiz os coros, tudo…”, explica José Cid, agora, no texto do disco. “Acho que é um trabalho interessante”.

O que trazia e nos volta a trazer, agora, este disco? Para lá de sete composições originais de José Cid, na altura ainda a trabalhar com o Quarteto 1111 (Não convém, Olá vampiro bom!, Requiem, Nunca, Lisboa ano 3000, Meu amor e Amigos), uma versão de O Dragão, tema escrito pelo baixista do quarteto, Jorge Moniz Pereira; Gabriela cravo e canela, com letra de Jorge Amado e música de Cid (mais tarde, Dori Caymmi, filho de Dorival, escreveria uma outra versão intitulada Alegre menina); Dom fulano, versão de Natália Correia para um tema do cancioneiro de D. Dinis (cuja letra original, em português medieval, agora se publica a par da outra); Ni Helile, do trovador moçambicano Fany Mpfumo; e finalmente Volkswagen blue, canção que Gilberto Gil compôs e, depois de se cruzar com José Cid em Portugal, lhe ofereceu, junto com outro tema, para gravar.

Por cima dos registos de Cid (voz e instrumentos), quis o maestro Pedro Osório juntar alguns apontamentos orquestrais, que Cid tolerou. No geral, diz Miguel Augusto Silva (que no libreto actual analisa meticulosamente cada uma das canções), “o disco é extremamente denso e coeso”, e a componente orquestral de Pedro Osório é bastante inteligente… A transversalidade de influências musicais vai muito para além da abordagem do Quarteto 1111 e da influência psicadélica. Entre a bossa nova, o jazz, o psicadelismo, a música tradicional e a música electroacústica: pop de vanguarda – o que, em certos aspectos, o aproxima de uma estética “canterburiana”… (foi em Canterbury, Inglaterra, que a pop psicadélica, escreve ainda Miguel Silva, “escolheu o jazz e ignorou o blues, namorando a música electroacústica e apaixonando-se pela bossa nova”).

Fonte: Público

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